05 fevereiro 2013

Terapia da Fala

Comunicar foi fundamental para a minha reabilitação, como já referi na mensagem “comunicar”. A terapia da fala foi o princípio de uma grande caminhada e foi essencial para o modo como falo hoje em dia.
Primeiro foi necessário reforçar a parte respiratória com a ajuda de cinesiterapia, pois não conseguia expirar e inspirar corretamente.
Passei por várias fases, vou destacar algumas que ficaram mais presentes na minha memória:
ü Encher as bochechas com ar, de modo a trabalhar os músculos da face;
ü Com a ajuda de uma palhinha, soprar uma vela acesa de modo contínuo, sem a apagar;
ü Através de uma palhinha, sugar uns papelinhos que estavam em cima de uma mesa, por fim já conseguia com uma moeda pequena;
ü A terapeuta pedia-me para dizer certas palavras e corrigia-me a língua com a espátula.
Muito trabalho, dedicação e dedicação de ambas as partes.
Aprender a falar novamente, tem sido um processo lento, mas tenho recuperado bastante bem. Hoje até acho que me entendem muito bem, e claro que a voz não esta tão límpida como era, acho-a rouca, dizem que está sensual.
Agradeço a Deus e a todos as pessoas que me rodeiam e rodearam ao longo destes anos e aos terapeutas da fala, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e outros técnicos que puxaram tanto por mim, sobretudo a quem acreditou e que continua a acreditar.

24 janeiro 2013

Hipoterapia (Cont.)

Após uns anos de paragem na terapia com os cavalos, finalmente regressei com uma vontade enorme de continuar e vencer mais uma etapa.
Este novo espaço parece ser bastante agradável, estou a gostar muito e está a ser um desafio grande, pois estou a realizar tarefas novas.
Experimentei a atrelagem e gostei daquela sensação de conduzir o atrelado. Eu é que estou a dar as ordens ao cavalo através dos movimentos dos meus braços, é incrível como já consigo fazê-lo, foi um momento que eu senti-me poderosa e feliz por estar a conseguir algo que achava inatingível, dada a minha condição física.



Também tive de montar a égua com sela, até à data nunca o tinha feito, porque montava sempre em cima de uma manta colocada no dorso dos cavalos. Tive receio, foi um passo novo, mas passadas 5 aulas habituei-me à sela e às rédeas e passei a ser eu a conduzir a égua, com o professor ao lado. Fiquei igualmente satisfeita, contente e orgulhosa por mim, por estar a colher os frutos de anos de fisioterapia.
 
 
 
E claro que, ainda estou no início desta aprendizagem, não pretendo ser uma Amazonas, mas quero muito aprender a andar de cavalo, acho que estou no caminho certo.

12 janeiro 2013

Hipoterapia

Os cavalos foram muito importantes na minha reabilitação e tudo indica que vão permanecer após uma paragem de cerca de 4 anos. Frequentei a hipoterapia durante cerca de 5 anos, num picadeiro na moita do Ribatejo, onde tive muitos progressos.


A terapia com os cavalos é muito completa, quer em termos neuromusculares quer em termos de interatividade com este animal maravilhoso. Os movimentos feitos pelo cavalo provocam efeitos benéficos na evolução ou desenvolvimento de capacidades motoras, por exemplo. Esta terapia proporcionou-me momentos de intensa alegria e conquista, postura física, concentração e estabilidade central.
Nas primeiras aulas tinha que andar a cavalo suportada por uma terapeuta que se encontrava atrás de mim a estabilizar-me o tronco, e duas outras pessoas a segurarem-me nas pernas para eu poder conseguir fazer o volteio.
Eu montava o cavalo sem sela e em cima de uma manta que tinha duas pegas para me segurar. Ao longo do tempo fui ganhando confiança com as éguas que montava e como consequência, ganhava mais confiança nos meus movimentos. Comecei por fazer volteio com a psicóloga a andar ao lado da égua para o caso de um desequilíbrio. Frequentei muitas aulas, tive várias fases de evolução e todas elas diferentes, até que atingi um patamar bastante satisfatório ou que nem me passava pela cabeça que alguma vez o iria atingir.
A minha postura e equilíbrio alteraram-se significativamente, assim como os pés e as pernas, foi uma boa fase da qual guardo muitas recordações boas e muitos ganhos, para mim e para quem trabalhou comigo, certamente.
As aulas de volteio foram evoluindo, cada vez mais fui ficando mais autónoma. Já conseguia largar as mãos alternadamente até largar completamente, pô-las em cima dos quadricípites de forma a estabilizar o tronco e de seguida levantar os braços fazendo um avião. Conseguia pôr-me em pé em cima dos estribos, agarrada às argolas que estavam no dorso do cavalo. Punha-me deitada de barriga para cima para sentir os movimentos do cavalo. Claro que quando fazia estes exercícios estava sempre alguém ao meu lado.

Por vezes, íamos todos andar de charrete nas redondezas da quinta. Fazia também passeios fora da quinta a cavalo, com o instrutor a segurar a boca do mesmo, de modo a controlá-lo. Tudo era novo para mim, sentia-me bombardeada de estímulos diferentes e constantes, dos quais disfrutei agradavelmente, quer a nível motor, quer a nível psicológico e nessa fase evoluí bastante.
Só terminei estas aulas de hipoterapia, porque mudei de casa e tornava-se muito dispendioso e também porque surgiram outras oportunidades que na altura achei que eram mais favoráveis. Contudo o meu pensamento sempre foi retornar à hipoterapia mais tarde. Atualmente encontro-me novamente a realizar esta terapia, no picadeiro em Almada.

Brevemente terei mais noticias :)

18 dezembro 2012

Tempestades!


As batalhas travadas diariamente são uma constante na minha vida, mal abro os olhos sou logo cercada pela verdadeira realidade.

Há dias em que acordo sem vontade nenhuma de continuar esta guerra constante, com a qual tenho que me confrontar diariamente e da qual não posso fugir de maneira nenhuma. Resignar-me está fora de questão, porque não faz parte da minha natureza.

Tenho dias de verdadeiras tempestades (resultantes da revolta da minha realidade) e quem paga é quem está mais próximo de mim. Até chego a questionar-me como me podem aturar, porque eu própria, às vezes, não consigo aturar-me a mim própria. Esta tempestade repentina assim como vem, também se vai logo embora e fica um sol lindo, quem me conhece sabe que não passa de um descarrego de emoções acumuladas diariamente.

Sempre fui uma pessoa disse tudo o que me vem à cabeça, de tal modo que nem tenho tempo para pensar no que digo, às vezes prejudico-me com este comportamento. As palavras fogem-me da boca, contudo no instante seguinte, arrependo-me logo e verifico que às vezes até estava errada, mas tenho este feitio, o que hei-me fazer?! Acho que faz parte da minha natureza, posso fazer um esforço para mudar, mas e difícil, pois percebi que é da minha essência. Nos momentos em que me sinto mais frágil, esta minha característica só causa é mais tempestades.

Com esta mensagem quero transmitir que todos temos nossos dias menos bons. É importante que as pessoas façam um pequeno esforço para se entenderem, contudo eu preciso de fazer um esforço muito maior, pois sou eu que preciso de ajuda diariamente. O meu pai está comigo quase todo o tempo, é a pessoa que me ajuda nas minhas deslocações e é um grande amigo, se não fosse o esforço, persistência e dedicação dele, eu não estava como estou hoje em dia. Assim como o meu pai, a minha mãe é um poço sem fundo de amor. Muitas vezes é sobre eles que eu descarrego as minhas emoções.

As tempestades (aquelas reações de fúria contra as pessoas, por uma mínima confusão, mas que servem como descarga dos meus problemas) existem no quotidiano de toda a gente, e quem ousar dizer que não as tem, está a enganar-se a si próprio. Na minha opinião, devemos libertar os sentimentos como a raiva ou a mágoa que só nos prejudicam a nós próprios, porque ficamos tristes e magoados. E quem nos faz sentir assim, vai à sua vidinha e nem sequer pensa mais no assunto, é como se voasse como o vento.

 Continuo a achar que o mundo é cor-de-rosa, de tal forma que o meu irmão costuma dizer-me que eu acredito no pai natal e na fada dos dentes. Não sei desconfiar das pessoas, sou ingénua e não vejo maldade nas outras pessoas, embora hoje em dia esteja um pouco mais alerta.

30 novembro 2012

Perdas e ganhos!


Quando perdemos ou ficamos privados de uma situação ou mesmo de algo, nessa altura é que damos o devido valor.  

Quando a nossa condição física nos permite caminhar, saltar e correr, não damos valor à pedra preciosa que temos na mão, só quando a perdemos, é que sabemos realmente o seu valor.

Na minha situação atual, costuma dizer-se que não é carne nem é peixe. Estou numa fase que já ando sozinha, mas tem de haver alguém por perto durante a marcha, contudo no treino no tapete que envolve: no gatinhar, rastejar, atividades de joelhos, etc., já sou bastante independente.

Não pensem que me estou a queixar, pelo contrário, estou muito contente com os meus progressos ao longo destes anos todos.

O sentimento de perder algo (como por exemplo, um objeto que gostamos, uma amizade, a nossa independência, um amor, etc.), deixa-nos fragilizados e tristes, parece que nos tiraram o tapete e ficamos sem chão. Mas não podemos ficar agarrados àquilo que se perde, pois isso faz parte do passado.

No meu caso a perda foi considerável. Pois perdi quase tudo o que tinha conquistado ao longo da minha vida, só não perdi o amor dos meus pais, do meu irmão e família. Perdi a possibilidade de exercer a minha profissão, que tanto gostava, um casamento e uma casa já planeados, pessoas que julgava minhas amigas e que não o foram, concluindo, passei por muitas deceções.

Ganhei também uma grande lição de vida, ao ver o mundo de outro modo. Pensei lutar pelas minhas vitórias e sobretudo aprendi a dar mais valor a pequenas coisas que a vida nos oferece, como já referi na mensagem aprendizagem. É preciso acrescentar que também acabei por fazer novas amizades com pessoas bem-intencionadas que me têm ajudado muito.

Apesar da minha realidade ser completamente diferente da realidade antes do acidente, continuo a ser bastante otimista, persistente, teimosa e ansiosa. Às vezes prejudico-me, por ter este feitio.

O que quero transmitir é: o que se perde no passado fica no passado, pois já não é possível voltar atrás para se recuperar. Aprendemos a lidar com as novas mudanças. Quem nos rodeia também aprende e aqueles que ignoram passam pela viva sem provar a sua verdadeira essência.

É claro que podemos pensar naquilo que perdemos de uma forma saudosa, acho que é natural. O que não é normal é ficar de tal modo agarrado ao que se perdeu, que não se aprende a dar o verdadeiro valor ao que se ganhou com a nova mudança.

Deste modo a nossa vida é composta por constantes lutas e batalhas sucessivas, perdas e ganhos. Assim não podemos baixar as armas, porque há sempre a esperança.

 

11 novembro 2012

Comunicar


Comunicar foi uma das tarefas mais difíceis que tive de enfrentar no início.

Quando estava no chamado “coma vígil” era o pânico total, porque quem estava à minha volta falava comigo, eu queria responder, mas não conseguia. As coisas estavam claras na minha cabeça, mas não conseguia transmitir o que queria dizer e também não percebiam o que eu estava a tentar dizer.
Era tudo uma grande confusão, pois eu não sabia o que me tinha realmente acontecido, e além disso, a minha falta de visão, na altura, também não ajudou.
 Comecei a comunicar através das letras do alfabeto, como já referi na mensagem “Despertar”.
A primeira palavra que pronunciei foi: “mãe”, pois a minha mãe estava sempre presente. Ela falava comigo, costumava ler-me um livro (cuja personagem principal era uma pessoa ativa, assim como eu era antes do acidente, o que fazia com que eu me identificasse nela), punha-me a ouvir as músicas de que eu gostava, etc., ela não descansou nesta fase.
Em seguida, comecei a pronunciar sons e outras palavras, e quando o fazia, todo o meu corpo tremia, pois usava os músculos todos para conseguir falar. Mesmo assim, quase ninguém percebia o que eu estava a dizer, exceto a minha mãe, o meu pai, o meu irmão e as pessoas que lidavam comigo diariamente no hospital da Ordem Terceira, onde estive internada até ir para Alcoitão. Essas palavras que fui aprendendo a dizer referiam-se a coisas que necessitava naquele momento.
Por exemplo, eu dizia a letra “A” quando me queria referir à água. Isto foi muito importante, pois passei muita sedinha e não percebia porquê, como já expliquei na mensagem “Despertar”. Foi a partir deste momento, que comecei a beber água com o auxílio de uma escova de dentes molhada.
Pronunciar a palavra “manta” foi essencial, porque tinha alterações da temperatura corporal. Como tinha muitos espasmos, estava sempre a destapar-me e depois tinha um frio de rachar.
 A palavra “otite” também foi importante, pois assim os enfermeiros perceberam que eu estava com dores no ouvido, podendo finalmente dar-me medicação. Só muito mais tarde percebi que estas dores nos ouvidos, talvez fossem provocadas pelas sessões de fisioterapia, uma vez que estas desafiavam o ouvido interno que contribui para o equilíbrio.
Poderia enunciar inúmeras palavras que também foram importantes, mas destaco apenas estas porque foram as primeiras. Depois, nunca mais parei de dizer novas palavras, finalmente podia falar.
Resumindo, claro que não comecei a falar claramente, mas quem me acompanhava compreendia o que eu dizia e isso bastava. Seguiram-se centenas de sessões de terapia da fala durante vários anos, mais adiante voltarei a falar acerca destas sessões.
É espantoso como o nosso cérebro é inteligente, digo isto porque as primeiras palavras que disse referiam-se a necessidades básicas que precisava no momento, o que significa que o nosso cérebro em situações extremas consegue adaptar-se.
Comunicar foi essencial na minha reabilitação. Permitiu interagir de forma eficaz com os meus terapeutas, existindo assim um feedback mútuo, o que foi muito importante.

03 novembro 2012

Bola Bobath


Desde sempre esta bola foi importante no meu processo de reabilitação, pois esta oferece muitos estímulos necessários para uma recuperação neurológica e não só.

Os estímulos pretendidos com a bola bobath são diversos, assim como: relaxamento muscular, alongamentos, equilíbrio, postura do tronco, ativação dos músculos do abdómen, estabilidade central e também ajuda a estimular as cinturas pélvica e escapular.

As atividades na bola bobath dependem da imaginação do terapeuta e dos músculos que têm que ser ativados ou desativados, conforme a necessidade.

O meu corpo adapta-se a cada estímulo novo e está em constante mutação, o que é bom, pois significa que o cérebro está a aprender.

Pessoalmente acho que este trabalho é muito importante, muito completo e é um dos que gosto mais.

Aqui estão alguns exemplos de uma pequena amostra desta panóplia extensa de exercícios que realizo:

Fig. 1: Treinar o equilíbrio e as cinturas.

Fig. 2: Alongamento.

Fig. 3: Alongamento.

Fig. 4: Ativação abdominal e cinturas.