13 março 2013

Pequenas alegrias

Esta semana tive duas surpresas muito agradáveis que me deixaram cheia de alegria, emoção e muito contente.

Estava no ginásio, onde costumo fazer as sessões de fisioterapia, quando fui surpreendida por uma colega de faculdade e do estágio profissional. Foi como recuar no tempo, foi como se voltasse aos anfiteatros e salas de aula, horas infindáveis de estudo em conjunto, trabalhos de grupo, onde eu era a mais trapalhona, porque fazia-os sempre com muita pressa, parecia que o mundo ia acabar, e na verdade, para mim acabou mesmo, porque terminou um ciclo da minha vida. Partilhamos também os resultados das pautas, ora alegrias ora tristezas, era sempre uma grande ansiedade, porque havia muita exigência. O meu curso superior foi muito teórico, difícil para todos nós, mas claro que haviam os barras que se destacavam do resto dos outros alunos, ou estudavam muito ou tinham o Q. I. muito elevado.

Quando fiquei em frente à minha colega, senti uma grande emoção. Parecia que tinha estado com ela há pouco tempo, não senti a barreira do tempo, foi como se ontem tivesse com ela e foi aquele abraço muito sentido. Agarramo-nos e foi um descambar de emoções e de alegria.

Eu não posso cair no facilitismo de dizer que o passado não interessa, como já referi anteriormente. Não posso porque o passado persegue-nos, quer nós queiramos ou não. Este faz parte daquilo que somos hoje e iremos ser amanhã, pois o futuro somos nós que o construímos conforme a realidade presente. Não podemos ficar à espera que o façam por nós, temos que construí-lo e adaptá-lo a cada situação que surge diariamente, não podemos ficar parados, temos de lutar, acreditar e ir a jogo com todas as armas que possuímos. Ter esta capacidade não é fácil, por vezes tem ser arrancada a ferros, só assim é possível sobreviver e lutar contra as adversidades da nossa vida, mas de modo a não pisar ninguém, senão não passamos de meros espetadores, além disso, é preciso ser-se subtis e humildade. Desta maneira podemos atingir a paz de espírito e estar bem connosco próprios.

Agora, vou falar da segunda surpresa que tive, no mesmo dia quase simultaneamente.

Conheci um menino que sofreu um traumatismo craniano bastante grave, com perda de massa encefálica, este menino é um guerreiro, tal como eu. Fazemos fisioterapia no mesmo local e também hipoterapia com o mesmo instrutor, apesar de ele ser acompanhado por um terapeuta comportamental, que o tem ajudado bastante. Somos bombardeados com muitos estímulos e por isso estamos bastante melhores. Perto do carnaval, as pessoas mais perto do Gonçalo apanharam um grande susto, porque ele, sem ninguém prever, caiu em cima da cama inconsciente e a vomitar. Foi internado uns dias, emagreceu, não comia, o que é uma coisa estranha naquele rapaz, não reagia a estímulos exteriores e ficou apático durante uns dias. Lentamente o Gonçalo foi recuperando e para surpresa de todos que o acompanham, regressou ao seu dia a dia, até parecia outro Gonçalo como se tivesse ocorrido um “click” para a vida. Ficou mais concentrado nos seus movimentos, já sabe ficar mais calmo a aguardar por algo que pediu, está mais atento ao mundo e ao seu redor, mais social e com mais memória.

Já conheci muitos casos de traumatismos cranianos durante estes anos de reabilitação. Todos são diferentes entre si, cada um tem a sua história, a sua evolução, características e não há um caso igual ao outro, apesar de haver sempre comparações, eu própria já as fiz bastante vezes, acho que e inevitável.

Este rapazito, o Gonçalo tem-me chamado mais à atenção, porque acho-o especial e também, talvez por estar mais atenta ao que se passa à minha volta, porque a minha visão assim o permite.

Acho que tanto eu como o Gonçalo, estamos a ser muito bem acompanhados, por bons profissionais e pela nossa família mais próxima, alguns amigos e claro pelos nossos anjinhos da guarda que estão sempre em nós e oxalá que continuem sempre ao pé de nós.


“Quem quer que você encontre é a pessoa certa”
“O que quer que tenha acontecido é a única coisa que poderia ter acontecido”
“Cada momento em que algo começa é o momento certo”
“O que acabou, acabou”
 

17 fevereiro 2013

Django

Esta semana fui ao cinema, num centro comercial com muitos bons acessos para quem não se consegue mover livremente.
 
Chegamos ao shopping e foi fácil de aceder às cadeiras de rodas pertencentes ao mesmo, como já referi ainda tenho dificuldades nas deslocações muito longas, por isso preciso de recorrer a uma cadeira de rodas.
Eu e a minha prima fomos ver um filme que conta com a presença do Tarantino, que é dos meus atores e dos meus realizadores preferidos, acompanho o seu trabalho desde o início. Um dos primeiros filmes que vi, da sua autoria, foi o Pulp Fiction, outros filmes que me marcaram foram o Kil Bill e o From Dusk Till Dawn e mais recentemente o Django.
Todos estes filmes são surpreendentemente dentro do mesmo género e são repletos de muitos tiros e muita pancadaria, alguns deles com uma pitada de romance, muita ação, surpresa, humor sarcástico, e por vezes humor negro. Os filmes de Tarantino não deixam ninguém indiferente devido a todas estas características.
O filme que fomos ver foi o Django que mostra bem a mistura destes ingredientes. Este é um bom filme para quem gosta do realizador Tarantino e para quem não conhece o seu trabalho, pode ficar a conhecer, formando assim a sua opinião. Para mim, ou se gosta muito ou então não se gosta de todo, não se pode ficar indiferente.
Como já referi neste blog, tenho dificuldades na visão, para mim e difícil ler as legendas por causa dos campos de visão, ora vejo umas palavras ora vejo outras, portanto não consigo ler as frases completas. Opto por ouvir e treinar o meu inglês, que está francamente melhor. A visão também está a melhorar, de modo que, já consigo ver certos detalhes que me passavam ao lado quando ia ao cinema, o que me deixa bastante satisfeita porque é sinal de quanto a minha visão melhorou e dá-me esperança que melhore ainda mais, porque é isso que tem acontecido ao longo do tempo.
Já me ia esquecendo de referir como o Tarantino é inconfundível na escolha das bandas sonoras dos seus filmes, acho-o irrepreensível nas suas escolhas. Pessoalmente gosto muito de todas as bandas sonoras selecionadas por este, mas a que destaco é a do filme Pulp Fiction.
 
Por todos estes motivos, deixo aqui um convite para ver o filme Django no ecrã do cinema, tem um som e imagem inigualável e mais uma vez fiquei rendida ao Tarantino.
 

05 fevereiro 2013

Terapia da Fala

Comunicar foi fundamental para a minha reabilitação, como já referi na mensagem “comunicar”. A terapia da fala foi o princípio de uma grande caminhada e foi essencial para o modo como falo hoje em dia.
Primeiro foi necessário reforçar a parte respiratória com a ajuda de cinesiterapia, pois não conseguia expirar e inspirar corretamente.
Passei por várias fases, vou destacar algumas que ficaram mais presentes na minha memória:
ü Encher as bochechas com ar, de modo a trabalhar os músculos da face;
ü Com a ajuda de uma palhinha, soprar uma vela acesa de modo contínuo, sem a apagar;
ü Através de uma palhinha, sugar uns papelinhos que estavam em cima de uma mesa, por fim já conseguia com uma moeda pequena;
ü A terapeuta pedia-me para dizer certas palavras e corrigia-me a língua com a espátula.
Muito trabalho, dedicação e dedicação de ambas as partes.
Aprender a falar novamente, tem sido um processo lento, mas tenho recuperado bastante bem. Hoje até acho que me entendem muito bem, e claro que a voz não esta tão límpida como era, acho-a rouca, dizem que está sensual.
Agradeço a Deus e a todos as pessoas que me rodeiam e rodearam ao longo destes anos e aos terapeutas da fala, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e outros técnicos que puxaram tanto por mim, sobretudo a quem acreditou e que continua a acreditar.

24 janeiro 2013

Hipoterapia (Cont.)

Após uns anos de paragem na terapia com os cavalos, finalmente regressei com uma vontade enorme de continuar e vencer mais uma etapa.
Este novo espaço parece ser bastante agradável, estou a gostar muito e está a ser um desafio grande, pois estou a realizar tarefas novas.
Experimentei a atrelagem e gostei daquela sensação de conduzir o atrelado. Eu é que estou a dar as ordens ao cavalo através dos movimentos dos meus braços, é incrível como já consigo fazê-lo, foi um momento que eu senti-me poderosa e feliz por estar a conseguir algo que achava inatingível, dada a minha condição física.



Também tive de montar a égua com sela, até à data nunca o tinha feito, porque montava sempre em cima de uma manta colocada no dorso dos cavalos. Tive receio, foi um passo novo, mas passadas 5 aulas habituei-me à sela e às rédeas e passei a ser eu a conduzir a égua, com o professor ao lado. Fiquei igualmente satisfeita, contente e orgulhosa por mim, por estar a colher os frutos de anos de fisioterapia.
 
 
 
E claro que, ainda estou no início desta aprendizagem, não pretendo ser uma Amazonas, mas quero muito aprender a andar de cavalo, acho que estou no caminho certo.

12 janeiro 2013

Hipoterapia

Os cavalos foram muito importantes na minha reabilitação e tudo indica que vão permanecer após uma paragem de cerca de 4 anos. Frequentei a hipoterapia durante cerca de 5 anos, num picadeiro na moita do Ribatejo, onde tive muitos progressos.


A terapia com os cavalos é muito completa, quer em termos neuromusculares quer em termos de interatividade com este animal maravilhoso. Os movimentos feitos pelo cavalo provocam efeitos benéficos na evolução ou desenvolvimento de capacidades motoras, por exemplo. Esta terapia proporcionou-me momentos de intensa alegria e conquista, postura física, concentração e estabilidade central.
Nas primeiras aulas tinha que andar a cavalo suportada por uma terapeuta que se encontrava atrás de mim a estabilizar-me o tronco, e duas outras pessoas a segurarem-me nas pernas para eu poder conseguir fazer o volteio.
Eu montava o cavalo sem sela e em cima de uma manta que tinha duas pegas para me segurar. Ao longo do tempo fui ganhando confiança com as éguas que montava e como consequência, ganhava mais confiança nos meus movimentos. Comecei por fazer volteio com a psicóloga a andar ao lado da égua para o caso de um desequilíbrio. Frequentei muitas aulas, tive várias fases de evolução e todas elas diferentes, até que atingi um patamar bastante satisfatório ou que nem me passava pela cabeça que alguma vez o iria atingir.
A minha postura e equilíbrio alteraram-se significativamente, assim como os pés e as pernas, foi uma boa fase da qual guardo muitas recordações boas e muitos ganhos, para mim e para quem trabalhou comigo, certamente.
As aulas de volteio foram evoluindo, cada vez mais fui ficando mais autónoma. Já conseguia largar as mãos alternadamente até largar completamente, pô-las em cima dos quadricípites de forma a estabilizar o tronco e de seguida levantar os braços fazendo um avião. Conseguia pôr-me em pé em cima dos estribos, agarrada às argolas que estavam no dorso do cavalo. Punha-me deitada de barriga para cima para sentir os movimentos do cavalo. Claro que quando fazia estes exercícios estava sempre alguém ao meu lado.

Por vezes, íamos todos andar de charrete nas redondezas da quinta. Fazia também passeios fora da quinta a cavalo, com o instrutor a segurar a boca do mesmo, de modo a controlá-lo. Tudo era novo para mim, sentia-me bombardeada de estímulos diferentes e constantes, dos quais disfrutei agradavelmente, quer a nível motor, quer a nível psicológico e nessa fase evoluí bastante.
Só terminei estas aulas de hipoterapia, porque mudei de casa e tornava-se muito dispendioso e também porque surgiram outras oportunidades que na altura achei que eram mais favoráveis. Contudo o meu pensamento sempre foi retornar à hipoterapia mais tarde. Atualmente encontro-me novamente a realizar esta terapia, no picadeiro em Almada.

Brevemente terei mais noticias :)

18 dezembro 2012

Tempestades!


As batalhas travadas diariamente são uma constante na minha vida, mal abro os olhos sou logo cercada pela verdadeira realidade.

Há dias em que acordo sem vontade nenhuma de continuar esta guerra constante, com a qual tenho que me confrontar diariamente e da qual não posso fugir de maneira nenhuma. Resignar-me está fora de questão, porque não faz parte da minha natureza.

Tenho dias de verdadeiras tempestades (resultantes da revolta da minha realidade) e quem paga é quem está mais próximo de mim. Até chego a questionar-me como me podem aturar, porque eu própria, às vezes, não consigo aturar-me a mim própria. Esta tempestade repentina assim como vem, também se vai logo embora e fica um sol lindo, quem me conhece sabe que não passa de um descarrego de emoções acumuladas diariamente.

Sempre fui uma pessoa disse tudo o que me vem à cabeça, de tal modo que nem tenho tempo para pensar no que digo, às vezes prejudico-me com este comportamento. As palavras fogem-me da boca, contudo no instante seguinte, arrependo-me logo e verifico que às vezes até estava errada, mas tenho este feitio, o que hei-me fazer?! Acho que faz parte da minha natureza, posso fazer um esforço para mudar, mas e difícil, pois percebi que é da minha essência. Nos momentos em que me sinto mais frágil, esta minha característica só causa é mais tempestades.

Com esta mensagem quero transmitir que todos temos nossos dias menos bons. É importante que as pessoas façam um pequeno esforço para se entenderem, contudo eu preciso de fazer um esforço muito maior, pois sou eu que preciso de ajuda diariamente. O meu pai está comigo quase todo o tempo, é a pessoa que me ajuda nas minhas deslocações e é um grande amigo, se não fosse o esforço, persistência e dedicação dele, eu não estava como estou hoje em dia. Assim como o meu pai, a minha mãe é um poço sem fundo de amor. Muitas vezes é sobre eles que eu descarrego as minhas emoções.

As tempestades (aquelas reações de fúria contra as pessoas, por uma mínima confusão, mas que servem como descarga dos meus problemas) existem no quotidiano de toda a gente, e quem ousar dizer que não as tem, está a enganar-se a si próprio. Na minha opinião, devemos libertar os sentimentos como a raiva ou a mágoa que só nos prejudicam a nós próprios, porque ficamos tristes e magoados. E quem nos faz sentir assim, vai à sua vidinha e nem sequer pensa mais no assunto, é como se voasse como o vento.

 Continuo a achar que o mundo é cor-de-rosa, de tal forma que o meu irmão costuma dizer-me que eu acredito no pai natal e na fada dos dentes. Não sei desconfiar das pessoas, sou ingénua e não vejo maldade nas outras pessoas, embora hoje em dia esteja um pouco mais alerta.

30 novembro 2012

Perdas e ganhos!


Quando perdemos ou ficamos privados de uma situação ou mesmo de algo, nessa altura é que damos o devido valor.  

Quando a nossa condição física nos permite caminhar, saltar e correr, não damos valor à pedra preciosa que temos na mão, só quando a perdemos, é que sabemos realmente o seu valor.

Na minha situação atual, costuma dizer-se que não é carne nem é peixe. Estou numa fase que já ando sozinha, mas tem de haver alguém por perto durante a marcha, contudo no treino no tapete que envolve: no gatinhar, rastejar, atividades de joelhos, etc., já sou bastante independente.

Não pensem que me estou a queixar, pelo contrário, estou muito contente com os meus progressos ao longo destes anos todos.

O sentimento de perder algo (como por exemplo, um objeto que gostamos, uma amizade, a nossa independência, um amor, etc.), deixa-nos fragilizados e tristes, parece que nos tiraram o tapete e ficamos sem chão. Mas não podemos ficar agarrados àquilo que se perde, pois isso faz parte do passado.

No meu caso a perda foi considerável. Pois perdi quase tudo o que tinha conquistado ao longo da minha vida, só não perdi o amor dos meus pais, do meu irmão e família. Perdi a possibilidade de exercer a minha profissão, que tanto gostava, um casamento e uma casa já planeados, pessoas que julgava minhas amigas e que não o foram, concluindo, passei por muitas deceções.

Ganhei também uma grande lição de vida, ao ver o mundo de outro modo. Pensei lutar pelas minhas vitórias e sobretudo aprendi a dar mais valor a pequenas coisas que a vida nos oferece, como já referi na mensagem aprendizagem. É preciso acrescentar que também acabei por fazer novas amizades com pessoas bem-intencionadas que me têm ajudado muito.

Apesar da minha realidade ser completamente diferente da realidade antes do acidente, continuo a ser bastante otimista, persistente, teimosa e ansiosa. Às vezes prejudico-me, por ter este feitio.

O que quero transmitir é: o que se perde no passado fica no passado, pois já não é possível voltar atrás para se recuperar. Aprendemos a lidar com as novas mudanças. Quem nos rodeia também aprende e aqueles que ignoram passam pela viva sem provar a sua verdadeira essência.

É claro que podemos pensar naquilo que perdemos de uma forma saudosa, acho que é natural. O que não é normal é ficar de tal modo agarrado ao que se perdeu, que não se aprende a dar o verdadeiro valor ao que se ganhou com a nova mudança.

Deste modo a nossa vida é composta por constantes lutas e batalhas sucessivas, perdas e ganhos. Assim não podemos baixar as armas, porque há sempre a esperança.